Página Vermelha

29.11.06

De Bolívar... a Lenin!

Sopram sobre a América do Sul os ventos das mudanças. Sopram como não se via há mais de 30, 40 anos.

Da Terra do Fogo às Cordilheiras dos Andes, do Altiplano ao Mar del Plata, das selvas colombianas ao Amazonas, a América do Sul tem presenciado revoltas, rebeliões, mudanças e revoluções.

Após o período de ditaduras em quase todos os países, temos visto agora os oprimidos e perseguidos de ontem ocuparem, pela força do voto, da opção democrática da maioria de seus povos, os governos centrais de seus países.

O fracasso das políticas geridas em Washington é notório. Sua implementação só conseguiu gerar mais pobreza, mais desigualdade, e enfraquecer a força que poderia mudar esta situação, o Estado. Não fosse a resistência do movimento social, os danos poderiam ser quase irreversíveis.

Agora, com a vitória das forças populares no Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Bolívia, Venezuela, Nicarágua e, essa semana, no Equador, com o apoio e participação tambémde Cuba, o sonho bolivariano de uma América unida, solidária, forte, tem plenas condições de ser realizado. De forma democrática e pacífica, dentro da legalidade do Estado de Direito.

Mas ao mesmo tempo permaneçamos alertas, pois o império não assistirá de braços cruzados a libertação de todo um continente.


PS: para quem não entendeu, Lenin Moreno é o novo vice-presidente do Equador ;-)

26.11.06

Eu, etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.


Carlos Drummond de Andrade

23.11.06

O Partido e a Utopia

Muitos dos militantes da esquerda são apaixonados por seus partidos. Muitas vezes esta paixão beira a cegueira - e nesse caso, assim como no amor, a cegueira faz com que tomemos atitudes que, geralmente, depois nos arrependemos.

Comecei a militar muito cedo, com 16 anos, no Partido dos Trabalhadores. Naqueles meus jovens dias, em toda e qualquer oportunidade em que surgia alguma brecha, lá ia eu puxar algum assunto para falar do PT, do socialismo, da revolução, e, claro, pau na direita!

Eram tempos em que, até pelo tamanho do partido - o ano era 1986, quando o PT tinha apenas 6 anos de idade - toda a militância era voluntária e abnegada. Inexistiam sequer assessorias de gabinetes, pois não haviam parlamentares.

As reuniões partidárias aconteciam ora na casa de um companheiro, ora na casa de outro, regado a muito companheirismo e repartir dos sonhos de uma sociedade sem diferenças sociais, sem classes, sem preconceitos, um mundo de liberdade formado por homens e mulheres iguais.

O tempo foi passando, o partido foi crescendo, foi assumindo governos municipais, estaduais, elegendo dezenas de deputados, centenas de vereadores... as disputas nos encontros partidários (éramos tão companheiros que não fazíamos congressos, nos encontrávamos) passaram a ser, cada vez mais, agressivas, e mesmo desrespeitosas. A intolerância cresceu. E paramos de nos sentar para repartir a Utopia.

Foi por causa disso que, em 1998, me desfiliei do Partido dos Trabalhadores. A ideologia partidária não se refletia mais na práxis política. E por isso, perdeu o sentido continuar me lançando em um mar onde estavam naufragando nossos sonhos.

Mas há outros barcos e outros mares para navegar, e quem tem uma ideologia pra viver, não consegue ficar muito tempo longe do oceano.

Por essa razão retornei à atividade partidária no PSB do Rio Grande do Sul, uma seção estadual do PSB onde, acredito, a expressão companheirismo não é vazia e sem sentido - e que, é importante ressaltar, não apresenta absolutamente nenhuma semelhança com o PSB de Santa Catarina - razão pela qual não estou mais no Partido Socialista Brasileiro.

Como já escrevi antes, estou agora no Partido Comunista do Brasil, onde permanecerei até meus últimos dias, até porque, pelo que conheço do PCdoB e de sua octagenária história, é um partido que aprendeu muito com seus erros, de forma dialética, e por essa razão problemas que hoje vemos em outras organizações já foram superados no partido e criados os devidos mecanismos para impedir que ocorram novamente.

O partido precisa ser já, em certa medida, parte daquilo que ele projeta como sociedade futura. Se queremos construir uma sociedade sem discriminação de qualquer natureza, não pode haver discriminação no interior do partido; se defendemos uma sociedade democrática e com liberdade, é necessário haver a mais profunda democracia e liberdade nas instâncias partidárias; se queremos abolir os privilégios, não podem haver militantes privilegiados e outros não.

Esse é um dos desafios da esquerda de nosso tempo. Crescer, assumir parcelas de governo, de espaços estatais, mas ao mesmo tempo estar permanentemente se auto-avaliando e auto-criticando para saber se ainda somos os mesmos e vivemos ou se já nos tornamos como nossos pais...

22.11.06

Da página 40 à página vermelha

Amigos, amigas, companheiros, quero informar que desde o dia 26 de outubro estou filiado ao Partido Comunista do Brasil - PCdoB. As razões de minha saída do PSB estão no blog Página 40.

Deixo muitos amigos no PSB, mas tenho certeza de que continuarei convivendo com aqueles que permanecerão nas lutas e movimentos sociais populares.

Agora é vida nova! É retomar a luta pela construção e consolidação de uma esquerda socialista em Florianópolis e Santa Catarina.

Muitos me perguntaram: mas você vai mesmo pro PCdoB? Ele não conseguiu nem ultrapassar a cláusula de barreira! A estes companheiros eu digo: o Partido Comunista foi fundado em 1922. Passou por muitas perseguições e ditaduras. Na maior parte de sua existência, esteve na ilegalidade. E sobreviveu a tudo isso. Vocês acreditam que não vá sobreviver a uma cláusula formal e antidemocrática? Eu tenho plena convicção que o PCdoB continuará a existir, com cláusula ou sem!

Outros ainda me diziam: mas Wladimir, você no PSB faz parte da direção, da Executiva da capital, vai ir pro PCdoB pra não ser nada lá? Meus amigos, vocês não imaginam como me sinto muito melhor sendo um filiado do PCdoB, do que sendo um dirigente do PSB. Neste momento, estou sendo honesto comigo! Estou onde deveria estar há muito tempo! Um partido que defende a construção de uma sociedade socialista, e que tem como perspectiva utópica (no sentido de um lugar que ainda não existe) uma sociedade sem classes sociais, sem explorados nem exploradores. Nesse sentido, não diria que sou e nem me sinto como um "nada"; pelo contrário, sinto que sou um "tudo" na medida em que me sinto em casa, na "casa do socialismo e da liberdade", como me disse o camarada Vinicius Puhl, companheiro de longa data.

Por último, surgiram ainda as perguntas que, por questão de amizade, não considerei ofensivas: o que você tá ganhando pra ir pro PCdoB? Ora, não é porque presenciamos diariamente no jogo político a prática do "toma lá, dá cá" que todos façam isso! Não ganhei nada e, mais importante ainda: não pedi nada. A única coisa que pedi, e já recebi, é um espaço partidário, um espaço para o fazer político, para a discussão, para a ação pensada e conjunta, e conjunta porque pensada.

Um espaço para construir uma nova sociedade, junto com homens e mulheres que também acreditam que a nossa utopia socialista pode e há de se tornar realidade.

Obrigado camaradas Paladini, Ângela, "Nanico", Stela, Volnei, Vinícius, e todos os que ainda não aprendi os nomes, por terem acolhido a mim e a minha companheira Rosa.

20.11.06

Em tempos de crise dos sonhos, ideais e projetos da esquerda, se faz necessário repensar todas as bases que construíram estes valores. É preciso enfrentar estes dilemas e refundar o ideal socialista e democrático.

Essa parece ser uma grande necessidade do PSB nesse momento que nacionalmente computa o favorável resultado das urnas e que regionalmente encontra difulculdades para manter os ideais escritos no seu manifesto. Ao ultrapassar a clausula de barreira o PSB se vê alvo de muitos olhares, alguns destes futeis e ate podiamos dizer promiscuos. Quanto nosso Presidente Roberto Amaral anuncia que devemos crescer com qualidade, precisamos definir que tipo de qualidade é essa.

A atuação da base será primordial para que as propostas indecentes sejam colocadas para escanteio. Não podemos deixar que decisões somente da cúpula nos levem a perder mais quadros socialistas em detrimento de filiações capitalista sem ideologia que nos formou ate aqui. Queremos crescer sim. Queremos ter pretensão de chegarmos ao poder sim. Queremos trazer a justiça social para todos os brasileiros e devemos com isso construir um projeto de nação e não um projeto político individualista. Que os ideais de João Mangabeira, Roberto Amaral e outros tantos socialistas sejam a bandeira levantada pelo PSB que emerge das urnas e pode ser o pilar de uma sociedade com melhor distribuição de renda e o crescimento equalitário da nação. Esse é o nosso maior desafio e devemos construir isso com SOCIALISMO E LIBERDADE.

2.11.06

Da página 40 à página 65

Amigos, amigas, companheiros, quero informar que desde o dia 26 de outubro estou filiado ao Partido Comunista do Brasil - PCdoB. As razões de minha saída do PSB estão na postagem anterior a esta.

Deixo muitos amigos no PSB, mas tenho certeza de que continuarei convivendo com aqueles que permanecerão nas lutas e movimentos sociais populares.

Agora é vida nova! É retomar a luta pela construção e consolidação de uma esquerda socialista em Florianópolis e Santa Catarina.

Muitos me perguntaram: mas você vai mesmo pro PCdoB? Ele não conseguiu nem ultrapassar a cláusula de barreira! A estes companheiros eu digo: o Partido Comunista foi fundado em 1922. Passou por muitas perseguições e ditaduras. Na maior parte de sua existência, esteve na ilegalidade. E sobreviveu a tudo isso. Vocês acreditam que não vá sobreviver a uma cláusula formal e antidemocrática? Eu tenho plena convicção que o PCdoB continuará a existir, com cláusula ou sem!

Outros ainda me diziam: mas Wladimir, você no PSB faz parte da direção, da Executiva da capital, vai ir pro PCdoB pra não ser nada lá? Meus amigos, vocês não imaginam como me sinto muito melhor sendo um filiado do PCdoB, do que sendo um dirigente do PSB. Neste momento, estou sendo honesto comigo! Estou onde deveria estar há muito tempo! Um partido que defende a construção de uma sociedade socialista, e que tem como perspectiva utópica (no sentido de um lugar que ainda não existe) uma sociedade sem classes sociais, sem explorados nem exploradores. Nesse sentido, não diria que sou e nem me sinto como um "nada"; pelo contrário, sinto que sou um "tudo" na medida em que me sinto em casa, na "casa do socialismo e da liberdade", como me disse o camarada Vinicius Puhl, companheiro de longa data.

Por último, surgiram ainda as perguntas que, por questão de amizade, não considerei ofensivas: o que você tá ganhando pra ir pro PCdoB? Ora, não é porque presenciamos diariamente no jogo político a prática do "toma lá, dá cá" que todos façam isso! Não ganhei nada e, mais importante ainda: não pedi nada. A única coisa que pedi, e já recebi, é um espaço partidário, um espaço para o fazer político, para a discussão, para a ação pensada e conjunta, e conjunta porque pensada.

Um espaço para construir uma nova sociedade, junto com homens e mulheres que também acreditam que a nossa utopia socialista pode e há de se tornar realidade.

Obrigado camaradas Paladini, Ângela, "Nanico", Stela, Volnei, Vinícius, e todos os que ainda não aprendi os nomes, por terem acolhido a mim e a minha companheira Rosa.