Página Vermelha

23.11.06

O Partido e a Utopia

Muitos dos militantes da esquerda são apaixonados por seus partidos. Muitas vezes esta paixão beira a cegueira - e nesse caso, assim como no amor, a cegueira faz com que tomemos atitudes que, geralmente, depois nos arrependemos.

Comecei a militar muito cedo, com 16 anos, no Partido dos Trabalhadores. Naqueles meus jovens dias, em toda e qualquer oportunidade em que surgia alguma brecha, lá ia eu puxar algum assunto para falar do PT, do socialismo, da revolução, e, claro, pau na direita!

Eram tempos em que, até pelo tamanho do partido - o ano era 1986, quando o PT tinha apenas 6 anos de idade - toda a militância era voluntária e abnegada. Inexistiam sequer assessorias de gabinetes, pois não haviam parlamentares.

As reuniões partidárias aconteciam ora na casa de um companheiro, ora na casa de outro, regado a muito companheirismo e repartir dos sonhos de uma sociedade sem diferenças sociais, sem classes, sem preconceitos, um mundo de liberdade formado por homens e mulheres iguais.

O tempo foi passando, o partido foi crescendo, foi assumindo governos municipais, estaduais, elegendo dezenas de deputados, centenas de vereadores... as disputas nos encontros partidários (éramos tão companheiros que não fazíamos congressos, nos encontrávamos) passaram a ser, cada vez mais, agressivas, e mesmo desrespeitosas. A intolerância cresceu. E paramos de nos sentar para repartir a Utopia.

Foi por causa disso que, em 1998, me desfiliei do Partido dos Trabalhadores. A ideologia partidária não se refletia mais na práxis política. E por isso, perdeu o sentido continuar me lançando em um mar onde estavam naufragando nossos sonhos.

Mas há outros barcos e outros mares para navegar, e quem tem uma ideologia pra viver, não consegue ficar muito tempo longe do oceano.

Por essa razão retornei à atividade partidária no PSB do Rio Grande do Sul, uma seção estadual do PSB onde, acredito, a expressão companheirismo não é vazia e sem sentido - e que, é importante ressaltar, não apresenta absolutamente nenhuma semelhança com o PSB de Santa Catarina - razão pela qual não estou mais no Partido Socialista Brasileiro.

Como já escrevi antes, estou agora no Partido Comunista do Brasil, onde permanecerei até meus últimos dias, até porque, pelo que conheço do PCdoB e de sua octagenária história, é um partido que aprendeu muito com seus erros, de forma dialética, e por essa razão problemas que hoje vemos em outras organizações já foram superados no partido e criados os devidos mecanismos para impedir que ocorram novamente.

O partido precisa ser já, em certa medida, parte daquilo que ele projeta como sociedade futura. Se queremos construir uma sociedade sem discriminação de qualquer natureza, não pode haver discriminação no interior do partido; se defendemos uma sociedade democrática e com liberdade, é necessário haver a mais profunda democracia e liberdade nas instâncias partidárias; se queremos abolir os privilégios, não podem haver militantes privilegiados e outros não.

Esse é um dos desafios da esquerda de nosso tempo. Crescer, assumir parcelas de governo, de espaços estatais, mas ao mesmo tempo estar permanentemente se auto-avaliando e auto-criticando para saber se ainda somos os mesmos e vivemos ou se já nos tornamos como nossos pais...

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