Página Vermelha

24.1.06

Programa de índio

Foi muito bonito e emocionante assistir a posse pela televisão do novo presidente da Bolívia, Evo Morales. Primeiramente a cerimônia indígena, com todos os significados de uma tradição com centenas de anos. Os líderes oferecendo presentes, o ritual de bênção dos líderes religiosos, enfim, um povo que foi massacrado pelos colonizadores espanhóis, teve suas cidades destruídas, suas riquezas roubadas, e que 500 anos depois retoma o controle de suas próprias vidas.

Depois a cerimônia oficial, com a presença das autoridades, presidentes e o povo, milhares de indígenas e brancos unidos pela esperança de novos tempos na Bolívia. Digno de registro a presença dos presidentes de países vizinhos, Chile, Brasil, Argentina, Venezuela.

Com a eleição de Evo Morales, a América do Sul amplia a presença das organizações e partidos de esquerda no governo. Depois de décadas de autoritarismo em quase todos os países, hoje vemos todos os perseguidos e exilados assumindo os governos de seus países.

É uma pena que o Brasil, que esperava-se fosse ter uma postura de liderança da América do Sul, seja hoje dentre todos os governos da esquerda, o mais tímido, recuado, envergonhado. Pela história da esquerda brasileira esperávamos mais.

19.1.06

Já valeu a pena

A aprovação da redução do recesso parlamentar de 90 para 55 dias, e o fim da remuneração nas convocações extraordinárias já são fatos suficientes para não tornar inócua esta convocação.

Considerando-se que foi gasta nela por volta de 100 milhões de reais, dá pra ter uma boa idéia da economia que gerará aos cofres públicos - e obviamente aos nossos "esgualepados" bolsos, como diria o companheiro lá de Bossoroca.

Cabe observar que foi nessa gestão de Aldo Rebelo que essas medidas, há anos discutidas e ventiladas, foram aprovadas. Claro que os escândalos que vieram à tona durante todo o ano de 2005 contribuíram muito para que o Congresso tomasse alguma medida. Mas há que se dar algum mérito ao camarada.

Importante também o fato de que apenas uma deputada, Suely Campos, do PP de Roraima, votou contra. 466 parlamentares votaram favoravelmente.

Paradoxal é que apenas 92 devolveram, doaram a entidades ou pediram para não receber o dinheiro recebido nesta convocação.

14.1.06

Evo Morales volta a La Paz de carona no Sucatinha - deu no Terra

Fico impressionado, a cada dia que passa, com a parcialidade de nossa imprensa. Ou ela é vendida, pró-governo (seja quem for o governante) ou é sensacionalista, baixa, rasteira, e em qualquer gesto ou atitude do presidente vê algo errado.

Esta notícia, publicada no site Terra, pertence a este segundo grupo de jornalismo.

Oras, Evo Morales é o novo presidente da Bolívia. Foi eleito. Irá tomar posse (torcemos por isso, não é mesmo? Que a Bolívia encontre uma estabilidade política). Então qual o problema dele ser tratado como chefe de Estado?

Além disso, há que se considerar também as relações que serão estabelecidas entre o Brasil e a Bolívia. 44% do abastecimento de gás natural no Brasil vem da Bolívia. Queremos ter boas relações com eles ou não?

A Petrobrás é a maior empresa estrangeira atuando lá. Isso é bom para o Brasil, e pode ser bom para a Bolívia também. É preciso estabelecer uma relação comercial justa, que seja boa para os dois países. E as condições para isso ocorrer são enormes!

Me deixa nauseado a cobertura que a imprensa faz da Bolívia e da Venezuela. Ainda ontem o jornal Nacional, ao falar da reunião de Evo com Lula, iniciou apresentando Evo como "o líder dos plantadores de coca". Isso é forma de tratar um presidente eleito democraticamente, com 54% dos votos? Apresentá-lo como se fosse um líder do tráfico (é essa a mensagem que foi passada)?

E no caso da Venezuela a coisa é ainda pior. Ainda estes dias, o mesmo jornal Nacional comentava a respeito do fato de que todos os deputados eleitos eram governistas. "Esqueceram" de citar que os partidos de oposição retiraram suas candidaturas e não disputaram as eleições. Se não disputaram, como poderiam se eleger?

É, a Globo não muda mesmo...

Leia a notícia original aqui: noticias.terra.com.br/b...

13.1.06

Eles só querem dinheiro

É uma vergonha esse nosso Congresso Nacional. O povo brasileiro é muito paciente mesmo. Só pode! Não bastasse o absurdo dos parlamentares receberem dois salários extras (por volta de 25 mil reais, ou quase 84 salários mínimos) por conta da convocação extraordinária - a qual a maioria sequer compareceu - surgem agora denúncias de que, entre aqueles que optaram por doar o dinheiro para entidades, 7 deles não teria concretizado a doação.

Ou seja: o Excelentíssimo Deputado fez média, quis aparecer, dizendo que abria mão desse pagamento indevido, doaria para alguma entidade assistencial e, até agora, não doou! Embolsou o dinheiro na maior cara de pau!

Não tem nem o que conversar com um sujeito desses. Deveria ser aberto imediatamente processo de cassação.

Por isso que eu acho que, embora tenha sido um gesto mais digno destes parlamentares que abriram mão, optar por doar a alguma entidade, o mais correto seria eles nem ter recebido. Afinal, o dinheiro é público, e ainda que a intenção seja boa, eles acabaram fazendo política pessoal com um dinheiro que não lhes pertence.

Mais uma vez cabe ressaltar a postura da Deputada Erundina, que abriu mão, devolvendo o pagamento à Câmara dos Deputados, não fazendo nenhum tipo de sensacionalismo ou assistencialismo.

Leia a notícia original aqui: www.correiodopovo.com.b...

6.1.06

Apenas 12% dos deputados abriram mão do extra

Voltando ao assunto da remuneração pelo "trabalho" na convocação extraordinária... o site Terra publicou a relação atualizada dos parlamentarares que abriram mão de receber os dois salários adicionais.

O partido que lidera o ranking de devoluções é o PSOL, o que mais uma vez mostra que eles tentam ser "o velho PT", reeditando velhas práticas do Partido dos Trabalhadores. E não há dúvida de que esta era uma boa velha prática dos petistas, ao que parece abandonada, pois dos 82 deputados do PT, apenas 19 abriram mão dos recursos.

O PFL, honrando sua tradição de direita, registra apenas uma devolução em uma bancada de 62 parlamentares, apenas um deputado abriu mão.

Os camaradas do PCdoB aceitaram, todos, de bom agrado esses vencimentos e o nosso PSB registrou apenas duas devoluções. Lamentável.

Clique aqui para ler a matéria e a relação completa dos deputados que não aceitaram estes pagamentos: noticias.terra.com.br/b...

5.1.06

Em dúvida sobre apoio a Lula, PC do B já fala em Ciro

Mais uma notícia que aponta para a constituição de uma outra alternativa de esquerda para as eleições presidenciais deste ano.

O "estrago" feito pelas seguidas crises políticas em 2005 pelo jeito foi grande. Até os camaradas do PCdoB já estão olhando com outros olhos o governo Lula e o PT.

Particularmente acho isso muito positivo. Repito o que venho escrevendo: se Lula não apontar urgentemente novos rumos em sua política (não apenas a econômica, mas também e principalmente a social) será impossível apoiar sua reeleição.

Roberto Freire declarou na semana passada que o governo Lula não tem nenhuma característica de esquerda. Eu não diria tanto. Diria que não há nenhuma característica marcante , mas alguns traços, indícios, uma preocupação social, uma política internacional mais independente.

Mas de fato muito distante do tradicional programa da Frente Popular.

Leia a notícia original aqui: www.correaneto.com.br/n...

3.1.06

Para apoiar PT na eleição, PCdoB pede mudança

É, a coisa parece não caminhar da forma que muitos petistas esperavam. O PT, tradicionalmente, trata seus aliados de esquerda históricos, como o PCdoB e o PSB, de uma forma que beira o desrespeito. Considera-os quase como que "tendências externas do PT", sublegendas, que sempre acabam indo junto com eles. Verdade seja dita, o PSB e o PCdoB permitem isso. Ou permitiam.

Sim, porque com o crescimento destes partidos, a ocupação de prefeituras, governos estaduais, a inserção social, não cabe mais a estes outros partidos do campo democrático, popular, socialista e de esquerda, ir à reboque do PT. Muito menos nesse momento, onde o governo Lula está muito distante do que se esperava, e ainda por cima com sua história enlameada.

Até o PCdoB, que é visto como aliado incondicional, começa a ter uma mudança de postura. E com razão.

É aquilo que venho escrevendo aqui: ou o governo Lula e o PT realizam uma correção de rumos urgente, ou é hora de construir-se uma outra alternativa.

Leia a notícia original aqui: www.correiodopovo.com.b...

Dirceu apóia a reeleição de Lula - entrevista na Argentina

Em entrevista a um jornal argentino, José Dirceu fez algumas observações muito interessantes. Primeiro, contestou as pesquisas que dão vitória a José Serra em uma eventual disputa contra Lula - e é sempre bom lembrar que Lula também sempre vencia as eleições nas pesquisas. Ressalta os 33% de intenção de voto em Lula, apesar de oito meses de oposição e denúncias quase que diárias.

É sem dúvida um fato a ser ressaltado. Em que pesem todos os casos de corrupção e imoralidade, Lula tem mesmo um grande carisma. A oposição tucana e pefelista age como se Lula já estivesse morto, esperando as eleições para ser enterrado. Grande engano... o PT é muito grande, estruturado em todo o Brasil, Lula tem carisma, a máquina do Estado é enorme e quando começa a trabalhar... sai de baixo!

Não torço para que Lula seja derrotado e para que os tucanos/pefelistas retornem ao governo. Não seria bom para o Brasil, assim como não seria bom se Lula fosse reeleito para continuar fazendo (ou não-fazendo) o que está.

O pior da derrota de Lula, além da volta do tucanato, é o significado que ela traria. Seria como se décadas de lutas tivessem sido em vão. Mas também continuar como está, de certo modo, acaba dando essa mesma impressão de que lutamos tanto por nada.

Ainda acredito que se possa fazer uma correção de rumos neste último ano, e em uma eventual reeleição seguir outro caminho.

Ou podemos construir outro caminho, uma terceira via entre PSDB/PFL e PT.

A matéria original pode ser lida aqui: www.clicrbs.com.br/jorn...

1.1.06

O partido, o militante e a utopia

Pretendo publicar nos próximos dias algumas considerações a respeito do PSB, do conceito de militância e da nossa utopia socialista. Hoje publico a primeira destas considerações. Qualquer comentário é bem-vindo, concordando ou discordando.


A nossa a utopia



Thomas More escreveu, em 1516, seu livro mais conhecido, que descreve um país imaginário, em uma ilha em um oceano não identificado, onde Rafael Hitlodeu foi parar após embarcar em uma das viagens com Américo Vespúcio. Utopia significa "um não-lugar, um lugar que não existe". Nós, socialistas do Partido Socialista Brasileiro, defendemos um país e um mundo diferente do que temos, e nesse sentido defendemos uma utopia.

Mas o ano de 2005 trouxe vários fatos, novos elementos antes sequer imaginados por nós e pela ampla maioria das organizações e partidos de esquerda. Jamais passou por qualquer cabeça que, após mais de 20 anos de ditadura militar, mortes, torturas, exílios, a esquerda, ao chegar pela primeira vez ao governo central do Brasil, fosse cometer os erros mais mesquinhos e condenáveis. Inimaginável pensar que lideranças expressivas, militantes com passado, com história, fossem enveredar pelo caminho da corrupção, do favorecimento pessoal, do "toma lá, dá cá" que sempre vigorou nos governos brasileiros.

Mas foi o que aconteceu. O que nos conduz a perguntar: que intenções reais têm essas pessoas, que até pouquíssimo tempo atrás estavam conosco no mesmo palanque? Elas querem construir a utopia? E se elas querem construir esse "lugar que não existe - ainda", como podem reproduzir todas aquelas coisas velhas que tanto criticamos?

Precisamos discutir isso com muita seriedade, pois é preocupante o fato de que, após tudo que ocorreu e foi divulgado, expressivas lideranças do Partido dos Trabalhadores ainda neguem o óbvio. O PT errou, e errou feio. Se não for capaz de reconhecer isso - e não interessa se houve mensalão, semanalão ou pagamento de diárias - provavelmente não poderemos mais caminhar juntos, sob pena de comprometer o nosso projeto utópico.



Viagens de Lula somam 5 voltas ao redor do planeta

É claro que as críticas precisam ser feitas. Mas não concordo com simplificações como esta matéria publicada originalmente no jornal O Estado de São Paulo.

O presidente precisa e deve realizar viagens internacionais. O Brasil, no governo Lula, ampliou suas relações. Um bom exemplo foram as viagens realizadas para o Oriente Médio, com os países árabes (sequer citado na notícia) e as viagens para a África, berço cultural de uma ampla parcela de nosso povo, ao qual devemos muito.

Há uma crítica na notícia ao fato de que o Brasil não conseguiu conquistar o assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU. A matéria deixa a entender que, se o Brasil tivesse conquistado esse assento, tudo bem, as viagens teriam valido a pena.

Não concordo com essa campanha para o Brasil fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. Por quê alguns países são "iluminados" e devem fazer parte deste Conselho, enquanto que a imensa maioria deve assistir a isso?A ONU precisa passar por uma grande reforma, se quiser continuar existindo com poder de decisão. A invasão do Iraque pelos Estados Unidos e aliados mostrou que a ONU se transformou em uma espécie de Cruz Vermelha, só isso. Quando grandes e importantes decisões precisam ser tomadas, deixe para os "adultos" decidir.

A luta do Brasil deveria ser por esta reforma. Ampliar a participação de todos os países. Extinguir esse Conselho permanente, tendo apenas um Conselho com caráter mais Executivo do que decisório, renovado de tempos em tempos e sem reeleição. Aí sim poderemos ter uma verdadeira Comunidade de Nações.

É preciso realizar esta discussão no interior do governo. Podemos começá-la no interior dos partidos que compõem a base governista. Aí sim Lula precisará dar não 5, mas 10, 15 voltas ao redor do planeta para levar esta nova discussão.

Leia a notícia original aqui: noticias.terra.com.br/b...